Longe do meu gato de estimação
Morei mais de 5 anos com as mesmas duas amigas, os gatos dela e um meu. Na primeira semana fora da casa dos meus pais, adotei o Tico, esse ruivinho da foto.
Lembro como se fosse hoje: era sábado e fomos até a Cobasi da Imigrantes. Decepção total, pois não havia nenhum bicho para adoção. Então fomos rumo a outra unidade, que estava lotada, difícil de estacionar e tudo mais. Lembro que entrei e procurei os gatos para adoção. De muito, mas muito longe mesmo, vi a gaiolinha com um loirinho-ruivo e milhares (exagero, óbvio) de filhotes pretinhos. Meus olhos encheram de lágrima e a primeira coisa que eu verbalizei foi “meu filho”. Amor à primeira vista.
Se você é do tipo de pessoa que acha babaca o amor entre humanos e bichos, nem leia o resto. Ah, e uma observação: te acho meio idiota, desculpe, mas acho.
Prosseguindo: vi aquele gatinho laranja dormindo no meio de um monte de pretinhos agitados, todos muito bebês. Corri até a gaiola e pedi para pegá-lo. Não quis mais larga-lo e nem ele a mim naquele instante. Muito amor.
Há um procedimento padrão para adoção na Cobasi, na qual se paga uma taxa simbólica, na época algo em torno de uns 30 reais se não me engano. É que os filhotes lá expostos são recolhidos e cuidados por grupo. o dinheiro ajuda nas vacinas, ração, areia e todos cuidados para que consigam cuidar de mais bichos. Mas havia um problema: não aceitavam cartão e eu não tinha dinheiro. Meio a contragosto, minha amiga foi até o Itaú pra mim, pois eu não queria largar o bichinho, que dormiu na minha mão até ela voltar (valeu, Li!).
Voltei olhando hipnotizada pra ele. Nunca tive bichos de estimação reais – nào considero peixes, coelho, pintinhos e hamsters como parceiros, rs. E sempre sofri com rinite alérgica. Eu e praticamente minha família toda. Como eu amenizei isso é outra história.
Bom, Tiquinho era pequeno demais, magrelo, estava com os bigodes cortados e meio sem senso de direção por conta disso. Foi chamado de Tico-Tico porque não era só “um tico de gato”, era um tico do tico de tão pequeno.
Ele ainda tinha os pontos da cirurgia de castração e uma suspeita de sarna. Foi medicado e eu passei uma semana tomando banho de sabonete de enxofre, já era a pessoa da casa com mais contato com ele. Até que um dia, uma das minhas amigas e flatmates viu que a orelhinha dele estava praticamente transparente. O nariz, que tinha um machucado, estava pior. Descobrimos que ele tinha um fungo que estava corroendo sua pele. Foi desesperador, longos 40 dias de aplicação local e via oral, o inferno na terra pra qualquer gato – ou pra maioria deles. Quem tem sabe o tanto de arranhões e o stress que é alicar remédio via seringa na boca do gato. Enfim, ele ficou bem, encorpou e virou um gatão. ok, menos, um gato parecido com o gato de botas do shrek, uma preguiça a la Garfield e uma pança mole que balança quando ele passa, puro charme! Logo ganho muitos apelidos como Ticão, Tico, romance (ele é apaixonado por uma das minhas amigas que morava comigo), Ronaldinho (gordo e preguiçoso), ruivo, alemão, loirinho, vassourinha (adora procurar qualquer resquício de farelo de pão ou comida no chão)… hahaha
Sei que é piegas, brega. Mas com um bicho tão próximo aprendi a ser mais carinhosa e, juro, nunca mais me senti só. Namorado, falta de um, dias difícies: meu gorducho sempre foi tão carinhoso e presente que não tem tristeza que durasse com ele perto. Ai que saudades só de escrever isso…
Nossa rotina: no fim da madrugada ele vinha pra minha cama, deitava na minha cabeça, ao meu lado e, nos dias frios, pedia com a patinha pra entrar debaixo das cobertas, onde dormia abraçado comigo, com a cabeça no meu braço. De manhã, mesmo que eu levasse 3 mil horas pra levantar, ele me esperava quietinho para sairmos do quarto. Eu entrava no banho, ele entrava no box e pedia água quente do chuveiro, por muito tempo dada em conchinha na mão, que era colocada num pote.
Enfim, são tantas fofuras, como um charme que ele inventou pra ganhar carinho. Ele deita de lado, e fica esfregando uma patinha no rostinho enquanto mostra a lingua repetidas vezes. Eu sei, é engraçado, mas num bichinho fica fofo demais. E ele é pedinte de comida. E azedo. E metódico. Como eu amo meu filhote felino!!
Ele não pôde vir comigo pro apartamento, pois o proprietário (um puto) não aceita nenhum bicho. E só vi isso no dia de assinar o contrato, após 3 meses desesperadamente atrás de um lugar tendo que mudar pra ontem. Gostaria de estar em uma situção onde poderia procurar outro imóvel e levá-lo comigo, mas infelizmente a vida tem dessas às vezes. A parte boa: as madrinhas (flatmates e amigas) já haviam se oferecido pra ficar com ele. E na verdade eu andava pensando se, pro gato, seria melhor ficar com sua família felina, que ele ama tanto. Seria muita dó separá-lo do Haku, Léia e Neguinho, sua familinha amada, onde ele é querido por todos.
Visitei-o pela primeira vez quarta passada e ele estava ótimo, brincando muito. Fiquei aliviada, mesmo que dolorida de tanta saudade – coisa que sinto agora. Enfim, meu consolo é pensar que ele está melhor lá do que comigo. É, é a vida.

